Foi no último sábado, 6, na Av. Brasil, em Foz do Iguaçu

Estava eu, passeando tranquilamente, numa manha fria, quando vejo uma multidão aglomerada em uma esquina, e no meio uma dupla de mendigos, com camisetas rasgadas, calças sujas, um deles com uma panela toda amassada na cabeça encima de carrinho de juntar papelão. Me aproximo para ver o que é, me deparo com uma peça de teatro. Plena manha de sábado e as pessoas que saíram as ruas fazer suas compras param para assistir ao espetáculo teatral “Das saborosas aventuras de Dom Quixote de La Mancha e seu Escudeiro Sancho Pança – um capítulo que poderia ter sido”.

A peça foi trazida pelo SESC de Foz, o grupo Teatro que Roda, vem de Goiânia, e se apresenta por todo o país, levando alegria, descontração e cultura em um clássico da literatura que foi adaptado para as ruas

A avenida estava toda tomada por arte, em cada esquina tinha uma aventura de La Mancha o aguardando, o primeiro grande obstáculo foi a “esgrima” com pedaços de madeira. De repente, vem descendo um trator da travessa Quintino Bocaiúva, em direção a Av. Brasil, dele sai uma noiva, meio a tantas outras que estavam sentadas na esquina, e Dom Quixote segue desbravando o território, sempre acompanhado de seu fiel escudeiro, Sancho Pança.

Malabaristas nas esquinas, noivas penduradas nos prédios, as crianças engraxates da cidade que entraram no elenco de gaiata e até roubaram um pouquinho a cena. Tudo se confundia, já não se sabia o que era real e o que era ficção.

Em cada rosto parecia que tinha um pouquinho de Dom Quixote, uma vontade de sair em busca de aventuras na sociedade perdida. Claro que não é normal, um cavaleiro sem cavalo com uma panela na cabeça correndo avenida a dentro.

Tudo que é diferente pode assustar um pouco, e foi o que aconteceu com um policial que caminhava pelos arredores, à paisana. Quando chega a cena em que Dom Quixote é preso, (faz parte do teatro), o policial (de verdade), que não tem nada a ver com a história, levanta a arma, (também de verdade), aponta para os atores e manda parar tudo, “Sai do carro, sai do carro, o quê que vocês estão pensando? Sai do carro, para tudo agora” diz o policial. “Moço calma, é só uma peça de teatro, calma, calma é um teatro, para com isso é um teatro”, grita um espectador. “Para tio, para tio, deixa o Dom Quixote, é um teatro, não prende ele, não prende tio”, se desespera uma criança engraxate, uma daquelas, que já queria fazer parte do elenco.

Dom Quixote é levado, no carro de polícia que fazia parte do espetáculo, não se sabe se havia sido preso ou não, ninguém sabia ao certo o que acontecera, a indignação e tristeza dos presentes estava estampada no rosto de cada um, as noivas, no alto dos prédios gritavam “voooltaaa Dom Quixote, voooltaaaa”.

Sancho Pança entrou em desespero “gente, ele era meu amigo, ele foi a única pessoa que me deu valor, que gosta de mim, e agora, o que eu vou fazer sem o Dom Quixote aqui? Porque fizeram isso comigo, isso não é justo, a gente faz uma coisa legal, leva arte por todos os lugares onde passamos, por que uma coisa dessas?”.

“Não, olha: é brincadeira, só aqui acontecem essas coisas mesmo, nem a arte os caras não respeitam mais!”, disse indignado um escritor local. Um estudante de história, chorava, de indignação, não entendia como a ignorância podia tomar conta de tal forma das pessoas.

Passaram uns 15 minutos, todos aguardando para ver o desfecho da história, sempre esperam um final feliz, quando de repente uma criança larga sua caixa de madeira no chão e vai correndo em direção ao “louco, com panela na cabeça”, e gritando: “ele voltou, ele voltou!”, foi instantâneo o sorriso voltando ao rosto de um por um, a preocupação foi embora, e só restaram dúvidas sobre o que tinha acontecido realmente naquele meio tempo. Como recompensa, o cavaleiro que estava com os sapatos meio sujos, depois de ter sido detido, ganha um brinde do pequeno engraxate!
Mariana Serafini