terça-feira, 12 de maio de 2009

O papel das religiões na opressão da mulher

Este texto não tem como finalidade a crítica pura e simples sobre as diversas religiões ou sobre quem as professa, muito menos o questionamento da fé. Em determinados momentos da história, religiosos progressistas cumpriram e cumprem papéis importantes na emancipação de povos oprimidos, e a liberdade religiosa, garantida constitucionalmente é um direito inquestionável. Mas também é importante ressaltar que inúmeras atrocidades foram e são cometidas em nome de Deus.

Deus, à imagem e semelhançado homem?

Para Mary Daly, a complexidade das representações do divino das religiões monoteístas (judaísmo,cristianismo e islamismo) tem sua origem no poder unilateral androcêntrico (centrado no masculino). Portanto, a mediação com o sagrado, o sacerdócio, passa a ser exercido exclusivamente pelo homem. Se as mulheres não são suficientemente capazes para a mediação com o divino, está legitimada a opressão e a desigualdade nas relações de gênero. No livro "Beyond Deus, o Pai", a autora diz: "Uma vez declaradas “não aptas” para o sagrado, ficam numa posição de sofrerem sob o sagrado. Esta prática está coerente com a compreensão do sagrado como masculino. Deus é projetado como homem nestas religiões, que, por sua vez, legitima a centralidade no macho na sociedade: o sacerdote é homem, o rei é homem, os profetas são homens, os salvadores são homens... “Enquanto Deus é homem, os homens serão deuses”".

Uma das principais características de qualquer doutrina religiosa é exercer forte influência nos padrões de comportamento moral e social na população que pratica a sua fé. Desde que os primeiros hominídeos associaram fenômenos da natureza a “entidades” sobrenaturais para poder entendê-los, criaram também normas de conduta que imaginavam poder agradar a estas entidades. Quanto mais assimétricas se tornam as relações de poder entre os membros de uma sociedade, mais esta sociedade usará do artifício religioso para impor diferenças entre seus membros. E notadamente, sobre a mulher. Desta forma, quanto mais “evoluídas” as relações sociais, mais as religiões buscam regras e leis visando enquadrar a mulher nos papéis convenientes para a sociedade. E nada melhor para justificar este convencimento do que a vontade divina. A concepção de Deus muda segundo a concepção da humanidade a respeito de si própria. O que a observação nos demonstra é que inicialmentea ideia de Deus era feminina, já que associada à concepção e geração. Isto até a humanidade entender que a geração de bebês era conseqüência do ato sexual. Conforme mudam as percepções do homem sobre si mesmo, mudam também suas ideias sobre Deus. Ou o homem muda sua concepção sobre Deus, que ele concebe à sua própria imagem e semelhança.

Como a maioria dos brasileiros criados e educados à sombra de valores morais do cristianismo, as mulheres têm sua primeira relação com o divino em uma figura masculina. Um único Deus homem, severo, vingativo, que tudo vê e que condena a maioria das coisas interessantes, entre elas sexo, diversão, prazer e iniciativas. E para entender o papel da mulher para as diversas, correntes religiosas que o Brasil conheceu e conhece em sua história, é preciso entender cada momento político vivido e as necessidades da sociedade deste momento.

Duas correntes religiosas influenciaram majoritariamente a formação do povo brasileiro: a católico-cristã e a africana, uma vez que a população indígena foi parte dizimada, parte aculturada através da catequese. A miscigenação étnica e cultural da população provocou o fenômeno que conhecemos por sincretismo religioso. Exemplo maior deste caldo é a umbanda, doutrina genuinamente brasileira, com pouco mais de um século de existência, que mistura elementos esotéricos, católicos, espíritas kardecistas, das pajelanças indígenas, e do yorubá. Mais fiel a suas raízes, as chamadas religiões afro-brasileiras conservaram não só seus elementos originais mas também os valores morais dos grupos que aqui aportaram escravizados para servir de força de trabalho durante o Brasil colônia. Hoje, segundo o Babalaô Clóvis do Aganjú, de Nação Oió, “O Brasil é o país com o maior número de católicos praticantes das religiões afro, atualmente freqüentando as sessões de descarrego das igrejas evangélicas.” Eis aí a explicação para os milhões de católicos auto-declarados nos censos e igrejas católicas vazias em seus cultos dominicais.

(texto 2)

No Brasil, até que o Estado fosse declarado laico a Igreja acumulava os poderes ao mesmo tempo espirituais e terrenos, confundindo-se com o próprio Estado. Cobrava o dízimo, tinha o poder de aplicar multas, recolher e repassar impostos. Mais do que isto, ditava as normas de conduta e moral. A superioridade do homem descrita na bíblia era confirmada pela igreja. Numa época em que o importante era povoar a terra recém ocupada, nada mais conveniente do que uma mulher como a sugerida por Paulo de Tarso em Cartas para Timóteo (2:9,15):

Não existe pecado ao sul do Equador

''Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes e se enfeitem com pudor e modéstia. Não usem tranças nem objetos de ouro, pérolas ou vestuário suntuoso; pelo contrário, enfeitem-se com boas obras, como convém às mulheres que se dizem piedosas. Durante a instrução, a mulher deve ficar em silêncio, com toda submissão. Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem. Que ela conserve o silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. e não foi Adão que foi seduzido, mas a mulher que, seduzida, pecou. Entretanto, ela será salva pela sua maternidade, desde que permaneça com modéstia na fé, no amor e na santidade''

Quando, no século VXI, os portugueses invadem o continente recém ''descoberto'' e para cá enviam os degredados, criminosos e aventureiros pouquíssimas mulheres havia entre eles. Os homens que vieram foram responsáveis por estupros, raptos e inúmeras violências contra índias, o que resultou na imensa miscigenação do povo brasileiro. As mulheres enviadas mais tarde, com a finalidade de estabelecer uniões conjugais eram, igualmente, mulheres que ?não faziam falta? á sociedade portuguesa: Órfãs, criminosas, prostitutas, adúlteras. De forma que as relações que se estabeleceram por aqui não eram nada parecidas com os casamentos da metrópole. O território só começou a ser efetivamente colonizado em meados do século XVI, com o envio de religiosos determinados a implantar a moral da corte na colônia. Uma das primeiras providências foi instalar uma pesada taxa para os concubinatos, que beiravam 80% das relações estáveis; Depois, passaram a reforçar a importância da família patriarcal nuclear, instituir as ordens religiosas, e implantar, por aqui, os conceitos morais dominantes na Europa.

Com a chegada dos escravos africanos, outras idéias religiosas vieram a incorporar-se na sociedade brasileira. Mesmo proibidos de exercer seu culto, misturando suas divindades aos santos católicos, a influência da religiosidade e da cultura africana na sociedade brasileira é inquestionável. O trato do homem branco com a mulher negra, além de toda a carga do preconceito racial e religioso recebeu ainda o ''reforço'' da encíclica papal que afirmava ''Não existir pecado ao sul do equador'', já que negros e índios não possuíam alma. Enquanto nos matrimônios a idéia de pecado e a repressão faziam do sexo algo penoso para as mulheres e tedioso para os homens, as mulheres negras, com outro conceito de sexualidade,relacionavam-se com os homens brancos. Com ou sem vontade. Afinal, não tinham alma, mas possuiam corpo! As mulheres negras, portanto, eram destinadas ao trabalho, sexo e reprodução. Não tinham direito à família e seus filhos, as vezes filhos também do senhor de escravos, podiam ser arrancados para venda.

Nas religiões politeístas, originárias de civilizações ditas primitivas, as mulheres exerciam papéis diversos dos homens, mas nem por isso, menos relevantes. A lenda da criação do mundo, segundo a religião Yorubá, na vertente Nação Cabinda (RS), só é transmitida por tradição, de Babalaorixás (pais-de-santo) para seus Yalorixás (filhos-de-santo).

No início, Olorum tinha e contemplava todo o universo, mas estava entediado. Um dia, ele olhou para a Terra, viu o mar, e achou-o lindo! Recolheu sua espuma, e dela criou Yemanjá, para que ela usufruísse de tudo o que havia na terra. Mas Yemanjá caminhava pela praia, banhava-se no mar, e não sorria. Então ele buscou um punhado de areia do fundo do mar e criou Oxalá. Os dois se encontraram, e ouviram de seu deus a sentença: A terra é de vocês, desde que cumpram minhas três leis: Não plantem mais do que possam colher, não cacem mais do que possam comer e não queiram mais do que possam usar. Enquanto os Yorubás cumpriram a sentença, a vida foi boa; Havia caça e pesca em abundância, e o que eles plantavam nascia.. Mas seus filhos e netos dividiram-se em nações, e depois começaram a brigar por cobiça. Aí vieram outros homens, e com eles a escravidão. Enquanto houver cobiça, haverá escravidão. (relato verbal de Oldair de Oiá, Babalaô).

Nas religiões afro-brasileiras, pais e mães-de-santo gozam de igual prestígio, e no Orumalé (conjunto de santidades) os orixás têm prerrogativas semelhantes. Sem contar que Yemanjá é considerada a mãe da criação. O contato com o catolicismo, entretanto, fez com que alguns tabus cristãos fossem incorporados, como a proibição do exercício dos cultos pelas mulheres menstruadas, ou a diferenciação das vestes (calças para homens e saias para mulheres). De qualquer forma, a lenda da criação Yorubá é certamente das mais feministas e libertárias, além de extremamente atual: Quem dera que a humanidade não desejasse mais do que necessita... Sobre a homoafetividade, outro tabu recorrente nas religiões monoteístas (que dão ao sexo a finalidade básica da procriação), os yorubás têm outra visão. Ogum, filho dileto de Yemanjá, guerreiro conceituado, tem uma relação homoafetiva com Odé; No candomblé, Oxumaré troca de sexo no outono e na primavera, o que aponta para a bissexualidade. As lendas nos dão conta ainda de inúmeros casos de disputas amorosas, traições, separações, paixões, protagonizadas indistintamente por divindades homens e mulheres, sem a moralização e culpabilidade habitualmente atribuídas neste tipo de situações em estórias ocidentais.

(Texto 3)

Mais um produto do caldo cultural religioso brasileiro, as igrejas evangélicas misturam em seus cultos elementos do cristianismo protestante, da umbanda e do espiritismo. Como não existe um órgão ou poder centralizador, cada igreja na prática é uma religião autônoma e independente, com culto, liturgia e regras morais próprias.


O resgate do pecado original

Originária da reforma protestante, com ênfase em conceitos bíblicos patriarcais, reproduz a opressão masculina mais arcaica. ''Mulheres, sujeitai-vos aos vossos maridos'', parece ser o dogma central norteador das relações entre homens e mulheres. Como os evangélicos acreditam em possessões e realizam exorcismos, episódios como estupros e violência sexual podem ser explicados como influência demoníaca e resolvidos através de intervenções espirituais. É comum a culpabilização da mulher neste tipo e casos, como ''provocadora'' da situação: volta-se a idéia da mulher que induz o homem ao erro, ao pecado. Já os casos de violência doméstica tendem a ser caracterizados como problemas a ser resolvidos entre o casal, por meio de preces e orações. A indissolubilidade do casamento é obrigatória. Em sua maioria, mulheres também não ascendem a postos de sacerdócio, entre os evangélicos chamados de pastores. São no máximo obreiras, ou auxiliares.

Em momentos de crise, quando se acirram as condições de vida, nota-se um ascenso da credibilidade religiosa. Que também é mais forte nas populações mais desfavorecidas de poder econômico e políticas públicas. Quanto maior a ignorância de um povo acerca de seus direitos, maior também a aceitabilidade de dogmas e regras morais rígidas, buscando satisfazer suas raivosas divindades. É a expiação das culpas, o velho pecado original. Afinal, não só a maternidade deverá ser dolorosa: O homem também deverá ''comer o pão com o suor de seu rosto''.

O recente caso da excomunhão de uma criança de nove anos, grávida em decorrência de estupro, e de toda a equipe que lhe prestou assistência reacende o debate sobre a crueldade de determinados dogmas e de seu impacto sobre a vida das mulheres. Foram culpabilizadas todas as pessoas envolvidas, menos o homem estuprador. Até que ponto a intolerância da igreja teria o direito de obrigar uma criança de nove anos a correr risco de morte para gerar filhos que ela não optou por ter? Quem determina como deverá reagir a mulher vítima de estupro? Mais: Já que se arvora a legislar, porque a Igreja isenta de punição o homem, causador de toda a tragédia?

Que Deus, caso ele exista, ajude a humanidade a desfazer os conceitos que seus (em tese) filhos criaram para usar em seu nome.


Regina Abrahão é do Rio Grande do Sul, funcionária pública estadual, dirigente de políticas sociais do
Semapi, da CTB e do PCdoB de Porto Alegre, coordenadora do núcleo Cebrapaz, estuda Ciências Sociais na UFRG.

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